Lado B: metáfora brasileira
A alegria de qualquer autor é receber comentários sobre seus escritos. É uma alegria boba, tipo meio criança que recebe doce e saltita.
Foi o que senti ao ler a resenha escrita por não menos que o querido e premiado escritor Álvaro Cardoso Gomes. Senti-me presenteado e, com a devida autorização do autor, compartilho este presente:
Li Lado B de uma só assentada, nem tanto para seguir a lição de Edgar Allan Poe, quanto à obrigatória concisão do conto, mas também provocado por suas sintéticas alegorias. Sim, tomo a liberdade de dizer que o que o Cesar escreve são alegorias, prestando-se a leituras simbólicas de tempos sombrios, que regem as vidas de cidadãos alienados e submetidos a regimes de exceção. Estes regimes, mesmo não sendo nomeados diretamente, vigem nas entrelinhas, provocando um estupor acomodado do seres, por vezes, marcados, de maneira indelével, com um bigodinho, a lembrar um sujeito endeusado até mesmo em sua morte covarde, vergonhosa.
Lado B, o título da coletânea e título do primeiro conto, ilustra e bem o que é o lado obscuro das relações humanas, aquilo que subjaz a um mundo absurdo de intimações perversas, conspirações abstrusas e conspiradores, movidos por ideais fanados e sem sustentação. Lado B/Filme B, como nas contrafações de Hollywood, em que orçamentos vis, diretores e atores de segunda, cenários de fancaria, construíam enredos inverossímeis, mascarando verdades, mas, ao mesmo tempo, revelando verdades a serem ocultas. A lembrar uma delas, por sinal e malgré lui, excelente, intitulada Vampiro das Almas, dirigida por Don Siegel, em que vagens são enviadas à Terra, para germinarem cópias dos seres humanos, para que, no fim, reinem os simulacros sobre os cidadãos indefesos. Como o protagonista de “Um Homem de Bem”, que narra suas estripulias com a maior naturalidade, para ajudar a manter um governo fantoche, de exceção, no país, onde viverão os seres produzidos em série, como no das vagens de Don Siegel.
Entre todas as narrativas, sem desmerecer as demais, salientaria, para meu gosto pessoal, as kafkianas “Cumprindo o Dever”, “Castigo” e “Um Século Depois”. Na primeira, o narrador trata do sujeito que recebe uma intimação, a que deve obedecer, mesmo sem saber qual crime teria cometido, caminhando numa fila interminável, como se fosse um boi preparado para a degola, representada pelo sinal inconfundível com que será marcado, o de um líder de triste memória. Já em “Castigo”, observa-se uma alegoria do que o mundo virtual pode provocar nos usuários, castigados, ao verem que quem aparentemente manipula os signos, além de manipulado que é, faz, na verdade, parte desses mesmos signos, ao “observar no espelho os fluxos descontínuos de seus dados binários”.
“Um Século Depois” tem traços orwellianos bem configurados, ao invadir o espaço educacional em que “os livros são proibidos” e nem mais existem e em que os cidadãos são vigiados por Big Brothers, hologramas dos protetores, prontos para a delação. O resultado disso está nas aulas, nas quais, professores, que também são hologramas, reinventam narrativas e histórias, para impor uma nova visão da História, a serviço dos interesses inescrupulosos dos tiranos de plantão.
Resumindo em miúdos, Cesar Augusto de Carvalho dá seu recado, utilizando-se de expedientes literários sempre alusivos, o que implica que não caia num panfletarismo grotesco. Ou seja: põe o dedo na ferida, mas sem apelar para a literatura de consumo partidária, que vem se manifestando e grassando neste nosso bravo mundo de inconsequências gratuitas.